Resenha: Babel — R. F. Kuang
- Talita Chahine

- 10 de jun.
- 3 min de leitura
Em Babel, R. F. Kuang usa a tradução e a linguagem como armas para contar uma história sobre pertencimento, exploração e revolução.
Oi gente...
Tudo bem com vocês ??

Existem livros que a gente lê pela história, e existem livros que a gente lê e eles mudam a forma como a gente enxerga o mundo. Babel, da R. F. Kuang, com certeza entra na segunda categoria.
A história começa de forma muito triste: um garotinho é encontrado em uma casa cheia de mortos, em Cantão, na China. Ele estava doente, à beira da morte, e é resgatado por um professor inglês que o leva para Londres. Esse garoto vai crescer entre duas culturas, dois mundos, e duas identidades. Ele ganha um novo nome, Robin Swift, e desde criança passa a ser treinado para uma única coisa: entrar em Babel.
Babel é o Instituto Real de Tradução de Oxford, e nesse mundo a tradução não é apenas uma forma de comunicação — ela é poder. Através da prata e da tradução entre diferentes idiomas, é possível gerar uma espécie de magia. Barras de prata recebem palavras gravadas em duas línguas diferentes, e é justamente a diferença de significado entre essas palavras que gera energia e faz com que várias coisas funcionem melhor: transporte, medicina, indústria, tudo. A prata move o mundo.
E, principalmente, a prata sustenta o Império Britânico.
Quando Robin finalmente chega a Babel, ele acredita que venceu na vida. Ele tem amigos, tem uma posição importante, tem um futuro promissor. Mas essa sensação dura pouco. Aos poucos, ele começa a perceber que, por mais importante que seu trabalho seja, ele nunca será visto como igual. Ele e seus amigos — todos estrangeiros ou pessoas que não se encaixam na sociedade inglesa — estão ali porque são úteis, não porque pertencem àquele lugar.
E é aí que o livro começa a ficar cada vez mais pesado e mais político.
Robin descobre que a mesma prata que é usada para enriquecer o Império poderia ter sido usada para salvar vidas em outros lugares do mundo, inclusive a vida da sua própria família. Ele começa a entender que todo aquele sistema funciona porque existem países sendo explorados, porque existem pessoas sendo usadas, e porque existe uma estrutura inteira que depende dessa desigualdade para continuar existindo.
Nesse momento, ele entra em contato com uma sociedade secreta que quer combater o Império e mudar a forma como a prata é usada. E é aqui que a história deixa de ser apenas sobre tradução, universidade e amizade, e passa a ser sobre revolução, resistência e escolhas impossíveis.
Porque o grande conflito de Babel não é exatamente “quem é o vilão”, mas sim:até onde vale a pena ir para destruir um sistema injusto?E o que a gente está disposto a sacrificar no caminho?
A R. F. Kuang escreve esse livro de uma forma muito inteligente, porque ela usa a fantasia e a tradução como metáfora para falar sobre colonialismo, apagamento cultural, racismo, pertencimento e poder. Esse não é um livro sutil — ele é direto, político e, em muitos momentos, cruel. A autora não tenta suavizar as coisas, e isso pode incomodar algumas pessoas, mas é exatamente isso que torna o livro tão marcante.
Além disso, Babel também é um livro sobre solidão e pertencimento. Robin e seus amigos vivem entre dois mundos, mas não pertencem completamente a nenhum deles. Eles não são mais quem eram antes, mas também nunca serão aceitos como iguais onde estão. E essa sensação de não pertencer a lugar nenhum acompanha a história inteira.
Outro ponto muito forte do livro é a relação entre os personagens. A amizade entre eles é uma das coisas mais bonitas da história, justamente porque é o único lugar onde eles podem ser quem realmente são. E é por isso que, quando as coisas começam a dar errado, tudo fica ainda mais doloroso.
Babel é um livro que fala sobre linguagem, mas principalmente sobre poder. Sobre quem tem o poder de contar a história, de traduzir o mundo, de decidir o que é certo e o que é errado. E no final, a gente entende que tradução nunca é algo neutro — sempre existe escolha, sempre existe perda, sempre existe alguém que ganha e alguém que perde.
Não é uma leitura leve, não é um livro rápido, e definitivamente não é uma fantasia comum. Mas é um daqueles livros que ficam na cabeça da gente por muito tempo depois que a história acaba.
E talvez a grande pergunta que esse livro deixa seja:é possível mudar o mundo sem se tornar parte daquilo que a gente mais odeia?
Porque em Babel, toda escolha tem um preço. E ele é alto.
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